Veterinária que estuda a Amazônia tem trabalho reconhecido pelo governo alemão

November 10, 2015

 

Desde 2009, o Ministério da Educação e Pesquisa da Alemanha premia pesquisadores do cenário internacional que se destacam no campo do desenvolvimento sustentável. Dos 27 vencedores do Green Talents 2015, três são brasileiros: Paulo Tarso Oliveira (com seu trabalho focado nos processos hidrológicos e de erosão do solo no Cerrado brasileiro), Larisa Marchiori Pacheco (especialista na intersecção entre novas tecnologias e energias renováveis) e Paula Araujo (assessora técnica de criadores familiares de bois e búfalos que moram em comunidades ribeirinhas) participaram do fórum de 15 dias que terminou dia 31 de outubro na Alemanha e em 2016 poderão fazer um intercâmbio de até três meses no país – tudo pago pelo governo alemão.

 

“Quase todos os Green Talents são potenciais parceiros. A criação desse networking é fundamental para debatermos a sustentabilidade num âmbito global”, disse Paula Araujo, uma das representantes brasileiras, em entrevista à GALILEU. A carioca formada em veterinária diz que “sempre respira fundo” antes de explicar o que faz da vida. Ela trabalha na Amazônia, no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, entidade supervisionada e financiada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “O objetivo do meu estudo é conhecer as plantas que existem na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Amanã e que fazem parte da alimentação do gado”. Além do trabalho no Instituto, Paula também deve concluir seu mestrado em Agricultura Orgânica em fevereiro de 2016.

 

Na entrevista, Paula fala sobre que aprendeu com as comunidades ribeirinhas e com a natureza e relata as peculiaridades do dia a dia de famílias que criam bovinos no meio da maior floresta tropical do mundo. Confira como foi a conversa:

 

Na prática, qual o foco do seu estudo?

 

No nosso trabalho de assessoria técnica a gente compreendeu que, assim como acontece em outros lugares, a alimentação era um ponto-chave de problemas ambientais e econômicos. Isto significa que os problemas causados pela falta de manejo das pastagens ou do manejo incorreto poderiam ser resolvidos através do manejo adequado. Apesar de termos muitas opções de forrageiras (alimentação de ruminantes) comerciais, estamos trabalhando numa unidade de conservação e precisamos ter cuidado no uso de espécies exóticas. Desta forma, seria interessante se pudéssemos utilizar os recursos naturais disponíveis na região, mas para isto precisamos ter informações sobre essas plantas. Não apenas identificar, mas coletar mais informações sobre hábitos, produtividade e qualidade nutricional. Assim a gente espera ter informações que possam subsidiar estratégias para o manejo agroecológico das pastagens desta região, conciliando essa atividade, que tem sua importância econômica para as famílias, com as questões ambientais envolvidas.

 

Como é a rotina no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá?

 

Nossa rotina varia, mas em geral passamos parte do mês na sede, em Tefé, e uma outra parte do mês em campo, nas comunidades. No meu caso, costumo passar cerca de 8 dias por mês trabalhando com os criadores familiares de gado na RDS Amanã o restante do mês trabalhamos com a equipe em Tefé-AM. Aqui no Instituto eu tenho a possibilidade de trabalhar com profissionais de diversas áreas. Isto ampliou minha percepção sobre as coisas. Uma veterinária pode olhar para um rebanho e enxergar sinais, sintomas, raças, características de conformação. Um biólogo pode enxergar os pássaros que se alimentam de carrapatos e todo o ciclo de relações entre os diferentes seres vivos. Um antropólogo pode ver a relação da atividade econômica do criador com a situação social da comunidade. Enfim... quando você conversa e interage com diferentes profissionais, sua visão de uma paisagem ou contexto muda completamente. O Instituto Mamirauá me proporcionou isso: ampliar minha visão do contexto que estou inserida e trabalhar com ele de forma holística. A partir daí, sim, podemos trabalhar a sustentabilidade no seu sentido mais amplo e diverso.

 

Você poderia dar um breve relato de como é a vida das famílias que criam bois e búfalos na reserva?

 

As realidades que você vai encontrar dentro do bioma amazônico são as mais diversas. No Amanã a criação de gado é familiar, ou seja, é um trabalho bastante simples e com poucos recursos. Os rebanhos têm em média 10 ou 20 cabeças e os animais geralmente são mestiços e se alimentam de plantas disponíveis – alguns criadores utilizam plantas comerciais, mas sem um manejo muito eficiente. As famílias geralmente trabalham com diversas atividades, como a pesca, a agricultura, o artesanato e a criação de gado, que é apenas mais uma dessas atividades. O interessante é entender como essas atividades juntas compõem a economia das famílias e como cada uma tem sua importância. O gado é uma segurança financeira que nenhuma outra atividade pode prover. Um exemplo clássico é quando alguém fica doente: eles têm a época certa de fazer a pesca e não podem conseguir o dinheiro de um dia pro outro para ir no médico e comprar remédios vendendo peixe. A agricultura a mesma coisa, você precisa de 14 meses para a mandioca ficar no ponto de colheita e mais um bom tempo para fabricar a farinha. Já o gado não, se você precisa de dinheiro, os animais têm uma alta liquidez, você consegue vender rapidamente e ter o dinheiro em mãos. A gente precisa considerar tudo isto quando sugerimos algum trabalho com eles.A reserva tem uma legislação própria, mas basicamente isso significa que as populações locais, que já moravam lá antes da criação da RDS, têm direito de usufruir dos recursos naturais e transformar áreas, entretanto a condição mais importante para isto é que as atividades sejam sustentáveis. Por isso o instituto trabalha realizando não apenas pesquisa, mas também assessoria técnica, de forma que um dê feedback ao outro, auxiliando as populações locais a adequarem suas atividades ao mesmo tempo em que melhoram sua qualidade de vida.

 

Quais são as principais necessidades e desejos desses trabalhadores?

 

Alguns deles sempre me falam que o gado é a aposentadoria deles, porque trabalhar com a farinha de mandioca dá dinheiro, mas é um trabalho muito pesado e, conforme vão envelhecendo, o fardo vai ficando muito pesado. Já com a criação de gado eles não têm um trabalho muito pesado e, juntando isto com outros cultivos agrícolas e outras atividades como a pesca, fica mais fácil se manter. Muitos estão dispostos a investir no pastejo rotacionado e na melhoria dos sistemas silvipastoris que eles já utilizam (aqueles sistemas onde há integração de árvores úteis e as pastagens), mas acho que o mais importante é compreender que o que eles querem é ter uma vida digna.

 

O que você aprendeu com essas famílias? E com a natureza da reserva?

 

Quando vim trabalhar aqui no Amazonas eu não sabia o que iria encontrar, tive que reaprender tudo: falar, andar, observar, ouvir. Levei um tempo pra desfazer as idéias que eu tinha e aprender de novo. As famílias com quem trabalho foram fundamentais para aprender tudo isso. Eles sempre me ensinam e é por isso que sempre utilizamos técnicas participativas, assim podemos construir diagnósticos e soluções considerando aspectos técnicos e as experiências das pessoas que cresceram naquele ambiente. Foi pensando assim que, junto com a pesquisadora Ana Carolina Barbosa de Lima, consegui chegar a algumas das metodologias que utilizamos na pesquisa. Queríamos ter dados sobre a experiência dos criadores com as plantas que estudamos. Eles são verdadeiros cientistas que observam e experimentam. Aprendemos muitas coisas que vão na contra-mão da natureza e na realidade deveríamos aprender a trabalhar com ela a nosso favor. É isso que a agroecologia preconiza e aqui pude ver que é a mais pura verdade. É fantástico observar como a natureza responde às nossas ações. Você consegue compreender e vivenciar as mudanças que a natureza provoca no ambiente e como é essa relação do ambiente com o homem. As respostas estão todas lá.

 

 

fonte: revista Galileu

Please reload

Posts Em Destaque

Corregedoria do TJAM facilita conversão de união estável em casamento civil

September 17, 2019

1/10
Please reload

Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square