Consciência Negra: Resgate da cultura africana passa pelas Abayomis

20 de novembro 2021

Nely Pedroso

Da equipe do BN

Jornalista do BN, Mayane Batista, participa da oficina de Abayomis


Símbolo de resistência da cultura negra, as bonecas Abayomis transformaram-se em uma das principais atividades da Associação das Crioulas do Quilombo de São Benedito, na Praça 14 de Janeiro, zona Centro-Sul de Manaus. A entidade, fundada há sete anos por integrantes da 5ª geração do primeiro quilombo urbano da Região Norte e segundo do Brasil, reconhecido e certificado pela Fundação Cultural Palmares em 2014.


A confecção das bonequinhas de pano sem costura e só com nós, que podem ser de cores única ou multicores de acordo com a imaginação e criatividade das artesãs, foi introduzida como um produto da comunidade pelas Crioulas do Quilombo de São Benedito por meio de cursos e oficinas.


Presidente da entidade, Keilah Fonseca, junto com a tesoureira, a pedagoga Rafaela Fonseca da Silva, e a vice-presidente da associação, Jamile Souza, organizadora dos festejos de São Benedito, são entusiastas da entidade e das atividades de cunho social e cultural que realizam como forma de manter a tradição e difundir a cultura negra para futuras gerações no Quilombo de São Benedito.


Além das bonequinhas mais simples, Keilah Fonseca também transformou as Abayomis em Orixás de matriz africana (Oxalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Iemanjá), com o objetivo de contar a história de luta e resistência dos negros e manter vida a história da negritude por meio da Associação.


Fazer uma boneca Abayomi não é uma tarefa difícil (veja vídeo). Chega a ser uma maneira lúdica, pedagógica e rentável de contar a história africana às crianças e adultos da comunidade, além de uma forma de fazerem reconhecer sua cultura e a sua história.


Keilah dá uma mostra, de forma rápida, como é fácil aprender a confeccionar bonequinhas Abayomis.


O surgimento das bonequinhas Abayomis, como conta Keilah Fonseca, tem duas versões conforme pesquisas feitas por ela mesmas nos livros e na internet. A primeira, remonta do transporte dos negros nos navios como escravos. Para fazer os filhos pararem de chorar desesperados com o sofrimento dos pais, as mães negras rasgavam a beira de suas saias em tiras e faziam tranças e nós, sem costura (as bonecas), para seus filhos brincarem. “Quando você dá de presente uma boneca Abayomi para alguém, significa que está dando o melhor que tem para essa pessoa”, garante.


A segunda, mais contemporânea, indica que as Abayomis começaram a ser produzidas no Brasil em 1980 pela educadora e artesã Waldilena Martins (Lena Martins), militante do Movimento de Mulheres Negras e que, por estar grávida, queria dar esse nome a um de seus filhos. “Então associamos a origem aos negros e agora a essa brasileira educadora”, fala a presidente da entidade.


A palavra abayomi tem origem ioruba e quer dizer encontro precioso (abay=encontro e omi=precioso )


Nos cursos e oficinas de confecção das bonecas, as crioulas do Quilombo de São Benedito aproveitam para contar histórias de luta e resistência dos negros, promover reflexões sobre questões relacionadas à identidade, ao preconceito e à autoestima de crianças negras. “Procuramos sensibilizar as crianças através da contação de histórias e da confecção de bonecas, pois acreditamos que só com educação na base, com crianças, vamos avançar contra o preconceito e a discriminação”, afirma Rafaela.


Trabalho de Crioula

A pedagoga assegura que faz o “Trabalho de Crioula” na comunidade usando fantoches de seus antepassados e pessoas que foram e são importantes da comunidade para a memória do Quilombo, como “o vovo Raimundinho, tia Lourdinha, que era quituteira de mão cheia, vovó Severa (tia da tia Lourdinha), entre outras”.


É por meio dos fantoches também, que Rafaela motiva às crianças a aprender tudo sobre sua identidade cultural e a reconhecer a importância de seus ancestrais. “Difundindo para que entendam a importância do negro, do preto no contexto histórico. Mas como digo e tenho orgulho, a minha identidade é preta”, afirma.


Mas o artesanato das Crioulas não se resume às Abayomis. Avançam para a reciclagem de garrafas de vidro e modelagem em biscuit que retratam especialmente as mulheres ancestrais que eram lavadeiras, quituteiras e amas de leite.

“Queremos manter viva a histórias de luta e resistência dos negros, promover reflexões sobre questões relacionadas à identidade, ao preconceito e à autoestima de crianças negras, sem esquecer de reverenciar os nossos ancestrais que aqui chegaram vindos do Maranhão como negros alforriados para trabalhar em Manaus, ainda na administração do governador Eduardo Ribeiro”, conta Rafaela Fonseca, que é pedagoga e mestranda em ensino tecnológico do Instituto Federal do Amazonas (Ifam).


“Quem quiser pode até transformar as bonequinhas Abayomis em chaveiros”, diz Keila Fonseca ao fazer questão de destacar que o artesanato (bonecas e bonecos da cultura africanas, biscuit, fantoches, terços, pretos velhos, negrinhos do pastoreio, tia Anastácia) foram batizadas pela professora Patrícia Sampaio como “Trabalho de Crioula”. “Nossas peças passaram a ser únicas, expostas e vendidas em feiras de artesanato por ocasião de nossos evento na comunidade”, completa.


O Dia da Consciência Negra tem programação festiva no Quilombo

09h – Exposição de Artesanato das Crioulas do Quilombo;

10h – Grupo de Capoeira Matumbé (Mestre KK Bonates)

12h – Distribuição de feijoada

14h – Pagode do Quilombo

Fotos e vídeo: Divulgação e BN