Dividindo a alça da sacola

Manhã quente em Manaus. Eu de saia lápis, salto alto e cabelo escovado (começando a se desfazer no suor da nuca) comecei a me sentir desafiada por uma sacola de compras pesada que teria “assento” no porta-malas do carro estacionado a algumas dezenas de passos dali.

A minha arma secreta ou solução mágica para fazê-la chegar ao local de destino sem que me esforçasse para tanto, chama-se marido, e ele estava em minha companhia naquele momento, mas dessa vez alguns cálculos, que nada tinha a ver com a soma do valor dos produtos passados no guichê, começaram a ser feitos em minha mente ainda enquanto empacotávamos as compras. Acontece que há algumas semanas o marido havia reclamado de desconforto inguinal após levantar peso, logo, por zelo comecei a considerar não deixá-lo carregar sozinho a tal sacola.

Pensava:
- “Mas é claro que ele não vai aceitar que eu carregue e eu nem conseguiria mesmo ‘pagar essa missão’ sozinha”;
- “Ele sabe que é e gosta de cumprir o papel do ‘Homem da casa’, da pessoa fisicamente mais forte da família”;
- “Será que vou ferir a sua autoimagem se fizer a proposta de dividirmos o ônus, segurando cada um em uma alça da sacola?”.

Propus, e ele, com cara de quem não quer, aceitou!

Enquanto caminhava, quase arrependida, avancei a cogitar no quanto nos permitimos suprir as expectativas sociais. E refleti, ainda, sobre a imagem de “Mulher bem sucedida” pela ótica da opinião pública.

E a partir daí, divaguei em conjecturas do tipo:
- “Duvido! Princesas não desceriam da carruagem para fazer compras de gêneros alimentícios. Alguém se encarregaria de todas as tarefas relativas ao banquete”
- “Feministas carregariam sozinhas esta sacola ou imporiam a algum homem à servidão, sem considerar possíveis fragilidades que ele esteja passando... Teriam elas marido?”

Particularmente, tenho tendência a ser “princesa” no padrão da descrição acima, mas casei com um “plebeu” convicto que, sempre que necessário, me situa sobre a realidade fora dos palácios. E confesso que, às vezes, isso ainda me incomoda! Outras vezes, no entanto, me alegra! E entre um sentimento e outro dou cada vez mais sentido a afirmativa aristotélica: “Virtus in médium est”, ou seja, “a virtude está no meio”.

Hoje a sacola que transportávamos ficou entre nós, bem no meio de um e de outro, mas não foi sobre ela que repousou a virtude resultante da nossa decisão de carregá-la daquela maneira. A virtude estava no equilíbrio da força que empregamos para carregar juntos; no ato de nos permitirmos aparentar menos forte ou mais robusto do que costumamos ser, independente do que possam pensar.

Dividimos a alça da sacola porque, antes, já havíamos decidido dividir a vida, para sempre!

*Dora Paula - é jornalista, escritora e poetisa. Membro fundadora da Associação de Jornalista e Escritoras do Brasil - coordenadoria Amazonas (AJEB-AM).