Mais uma dose de Pinot, por favor!

Não desejo o mal para o cãozinho de ninguém... dói muito no coração do seu dono!

A verdade é que nunca desejei, mas só descobri esse tipo de sofrimento recentemente com a desfecho da vida da minha menina maluquinha, “batizada” Pinot Noir.

Ela não tinha nada a ver com a leveza da uva que a denominava, apenas a parte do nome que dizia “noir”, pois era preta - reluzentemente escura!

Sim, havia muito brilho naqueles pêlos negros e fartos que se encontravam com outros também brilhantes pêlos brancos que lhe adornavam o peitoral, as duas patas dianteiras, o focinho que ligava-se ao dorso por uma faixa que separava os olhos e seguia rumo ao topo da cabeça.

Ah! Por capricho do Criador, também havia um charmoso tufo branco na ponta do rabo que quando embalava a sorrir, num balançar frenético, tornava momentos triviais em memoráveis. Era quase uma gargalhada silenciosa, porém elétrica: um choque de alegria!

Acabo de inferir que aquele rabinho era uma varinha de condão que ela, ao balançar, fazia espalhar amor, pois disso tenho certeza que era repleto o seu coração.

Mas ela se foi...

E a causa foi justamente o coração! Talvez dentro dele não coubesse a quantidade de bem-querer que ela acumulava para me entregar a cada encontro. E transbordou. E parou. E ela se foi...

Sua passagem por este plano foi resumida. Em apenas seis meses de existência me ensinou lições valiosas e profundas. Ela foi um intensivão! Me aprovou na repescagem de uma disciplina muito importante na vida: o servir.

Nos seus últimos dias ela me deu trabalho, me gerou angústia e me fez chorar dividindo suas dores... Mas também me deu a capacidade de ser alguém que ela pôde confiar até o final.

Certamente, em posições opostas, ela teria cumprido a tarefa com mais fidelidade, mas só eu sei o quanto venci limites pessoais para manter-me ao seu lado na tentativa de retribuir o amor que passou sua existência a me prover.

Agora ela descansa! E eu sigo - mais madura e cheia de gratidão - com os pensamentos a servir-me doses diárias e indispensáveis de Pinot Noir para substituir os rascantes sabores existenciais.

Um brinde à vida bem vivida e ao amor correspondido.

“Tim, tim”.


Dora Paula 14/06/2021



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