O Homem da casa

- Tchau, filho! Te amo. Lembre-se...

- Já sei... Eu sou o homem da casa!!!



E assim o pai, piloto, mais uma vez, despediu-se da cria enquanto saía para um pernoite longe do lar.

E acostumado a ficar a sós com a mãe, o menino de cinco anos respondeu seguro que já entendia a sua responsabilidade naquele contexto.

Só não esperava ele, que justamente, àquela noite uma visita inesperada chegaria para acabar com a tranquilidade de seu aconchego.

Enquanto tomava banho, ouviu um grito estrondoso vindo da cozinha. E em seguida um forte bater de portas.

Transbordando de valentia a criança vai ao encontro da mãe ainda desnudo para perguntar o que havia acontecido.

“Um pombo!” Respondeu ela ofegante. “Apareceu na cozinha enquanto preparava o nosso jantar”, complementa quase sem forças.

E com a responsabilidade de quem prometera ao pai ser o “homem da casa”, o menino volta ao quarto pra se armar de espada e escudo (ambos de material emborrachado). Ele estava decidido a expulsar o inimigo de seu território sagrado, para isso nem lembrou de vestir suas roupas. Afinal, naquele dia a mãe estava sob seus cuidados e o chamado era urgente.

Empunhando suas armas, abriu a porta da cozinha e marchou valente para a batalha - enquanto àquela que legalmente devia ser responsável pelo infante escondia-se com medo de ser surpreendida por um voo rasante capaz de fazê-la pular, mesmo sem asas ou paraquedas, varanda a baixo.

Depois de bravamente procurar o tal meliante voador, o menino retorna à sala com o seguinte veredito:

Mãe, terreno vasculhado e limpo! Pode voltar ao seu posto!

Desconfiada, a mãe adentra lentamente a cozinha percebendo minuciosamente o ambiente antes de voltar aos afazeres culinários. Já quase atingindo um nível aceitável de segurança, escuta um sacudir ligeiro de asas que vinha de uma fresta entre a geladeira e uma parede que divide o cômodo!

Novamente ressoam gritos, dessa vez também do filho que corre com as mãos sobre a cabeça suportando, para cima, sua espada e seu escudo, em cena de rendição.

E a porta da cozinha mais uma vez é fechada com desespero e violência.

Passados alguns segundo de silêncio e apreensão de ambos, o menino resolutivo, vai ao quarto guardar suas armas e vestir-se. Escolhe uma roupa de super herói. Quando retorna, dirige-se à mãe com a sentença:

“Agora vou resolver esse problema!”.

Ato contínuo, ele abre a porta... Dessa vez é a porta que dá acesso a saída do apartamento.

Surpresa e exaurida dos consecutivos sustos a ‘responsável incapaz’, com voz fraca, pergunta:

“Onde vais?”

O pequeno “homem da casa” responde:

Chamar o porteiro para capturar esse monstro!

E fechando a porta às suas costas, seguiu resolutivo.

Poucos minutos depois, chegou o reforço. E como o corajoso menino já havia anunciado: problema resolvido!

Mais tarde, ao telefone, gabou-se para o pai da saga de herói que tivera naquele dia em defesa do lar. Depois dormiu no colo da mãe e nem teve pesadelos!

Moral da história:

concentre-se em resolver o problema, não em ser, necessariamente, a solução!

Essa eu aprendi com ele, meu infante!

Dora Paula 31/05/2021